Ioga até que nem tanto esotérica assim


 
Ioga até que nem tanto esotérica assim
 

Criada na Índia há 5 mil anos e já vista apenas sob uma ótica mística, ioga é aplicada também como forma de tratamento para hipertensão, depressão e colesterol

por Adriana Chaves

Criada há 5 mil anos na Índia, a ioga já foi vista exclusivamente sob uma ótica mística, até começar a ser decifrada pelos ocidentais. Estudos científicos comprovam, cada vez mais, seus efeitos positivos na saúde física e mental. Algumas técnicas são reconhecidas como terapêuticas, e muitos médicos já recomendam a prática para uma série de casos clínicos.

Um dos trabalhos mais recentes sobre o assunto aponta melhorias na frequência cardíaca e na qualidade de vida de idosos que fazem exercícios respiratórios de ioga. O resultado está na tese de doutorado ainda inédita – prevista para ser publicada na revista médica internacional “Thorax” – do professor de educação física e ioga Danilo Forghieri Santaella, do Centro de Práticas Esportivas da Universidade de São Paulo (USP).

No estudo, orientado pelo pneumologista e pesquisador do Instituto do Coração (Incor) Geraldo Lorenzi, os idosos foram divididos em dois grupos: um passou por treinamento respiratório diário (10 minutos de manhã e 10 minutos à noite) durante quatro meses. O outro não fez os exercícios. Ambos preencheram questionários elaborados com critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre interação social, autonomia e funcionamento sensório-motor, no início e no fim da experiência. “Essa intervenção detectou que a saúde do coração melhora com a respiração consciente, fazendo cair a pressão arterial”, explica Lorenzi.

“Na variabilidade cardíaca (análise de possíveis alterações na função autonômica cardiovascular), a ação cerebral sobre o coração trouxe melhora de 20% entre os que fizeram exercícios respiratórios. Melhorou ainda a potência dos músculos inspiratórios e expiratórios”, diz Santaella.

Um trabalho da pesquisadora Thays Godoy, do Instituto de Medicina Comportamental do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), também verificou melhoria na saúde dos praticantes de ioga. Desenvolvido em empresas, o estudo dividiu funcionários em dois grupos. No que teve aulas de ioga, 68% apresentaram índice mínimo de depressão (o restante, índice médio), contra 39% do outro grupo. Além disso, 76% dos praticantes tiveram grau mínimo de ansiedade no fim da experiência, enquanto apenas 7% do grupo de controle – em que o fator testado não é aplicado – apresentaram essa performance.

Mas como esses efeitos são obtidos? A ioga entende a relação entre corpo e mente como uma via de duas mãos, afirma o professor de educação física da USP Marcos Rojo, especializado em ioga pela escola indiana Kaivalyadhama e coordenador do curso de pós-graduação de ioga das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).

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“Quando estamos tensos, contraímos músculos, modificamos nossa postura e o padrão respiratório. As técnicas de ioga atuam na modificação do tônus muscular, no restabelecimento da postura e no padrão respiratório ideal para a nossa saúde. Por outro lado, com o controle de estados de ansiedade e estresse, temos melhores condições para a aquisição de dieta saudável e modificações de hábitos prejudiciais”, explica.

Santaella endossa o especialista e cita outras contribuições da ioga para a saúde. “A prática ajuda no combate de problemas hormonais, como climatério e cólicas; na redução do estresse, tratando efeitos e mantendo um estado saudável; e no controle do colesterol, principalmente o LDL [mau colesterol].”

Apesar de todos esses benefícios, a finalidade da ioga não é servir como tratamento. “O objetivo é libertação, livrar a mente do sofrimento. A saúde vem de brinde, a partir do controle desses pensamentos”, diz o médico e pesquisador César Devesa, do Incor. “O grande objetivo da ioga é acalmar a mente, mas ela não exclui nenhum tratamento convencional. É atividade complementar”, acrescenta Thays, da Unifesp.

De fato, quem faz ioga quase sempre destaca os ganhos em bem-estar. “Tive sensações de derrame, ataque cardíaco, a coisa mais horrível da minha vida. Fui à minha médica e ela diagnosticou como ansiedade. Indicou terapia, ioga e meditação. O efeito que senti na ioga foi imediato”, conta a jornalista Andréa Soares Berrios, de 26 anos.

“Consegui um alto nível de concentração nas atividades do dia a dia e tive grande benefício intelectual, físico e emocional”, diz, por sua vez, a professora de regência e canto Rita de Cássia Fucciamato, 51. “A primeira coisa que os alunos comentam é que passam a dormir melhor, a respirar melhor, com concentração. Melhoram os problemas de coluna e de joelho. Quem tem mais idade, comenta que não cansa tanto na subida”, relata a professora de ioga Francisca Faustina de Paula.

CUIDADOS Mesmo trazendo reconhecidos ganhos à saúde, a prática da ioga exige cuidados. Segundo Santaella, hipertensos não devem fazer posturas invertidas (em que a pessoa fica de cabeça para baixo), porque isso aumenta a pressão arterial e, consequentemente, o risco de ruptura de aneurismas. Quem tem osteoporose também deve evitá-las, devido ao risco maior de lesão vertebral.

Além disso, cardiopatas devem evitar os exercícios de apneia (suspensão da respiração). O mesmo ocorre com quem tem depressão — segurar a respiração para soltar depois de um tempo é relaxante, mas pode provocar sensação de aflição.

O professor Rojo destaca que é importante o acompanhamento de um profissional qualificado. “Se entendemos que, ao ser praticada de forma adequada, a ioga possa ajudar na manutenção da saúde das pessoas, temos que admitir que, mal feita, poderá prejudicá-las”, observa. “Todos podem praticar ioga, mas, dependendo do caso, devemos propor algumas adaptações. Quanto a patologias, é imprescindível que o professor de ioga trabalhe em conjunto com o médico que cuida da pessoa.”

MUITAS LINHAS Como tantas práticas milenares, a ioga se ramificou, criou inúmeras vertentes. Existem 108 modalidades reconhecidas pelos mestres hindus, segundo Gustavo Oliveira, diretor do Espaço Cultural Vila Mariana (que dá aulas de ioga ligadas ao método De Rose). Se forem computadas também as linhas não reconhecidas, esse número chega a 400, nem todas presentes no Brasil (veja quadro ao lado).

Por aqui, a fama da ioga não escapou às academias de ginástica, que fizeram adaptações diversas.  Na rede Runner, por exemplo, “a referência é a Hatha Yoga, mas há influência de outras”, diz Ana Rosa Ferreira, professora de ioga da academia. “Às vezes mudamos o exercício para acomodar a perna mais para frente, porque sabemos que o movimento pode prejudicar o joelho. Ou mantemos a cabeça mais alongada para não forçar a coluna cervical. Aplicamos a sabedoria da educação física”, afirma.

Já Rojo critica o que chama “ginasticalização” da prática. “Na sua origem, ioga entende o corpo como uma estratégia para a aquisição de experiências importantes no caminho espiritual, como, por exemplo, a sensação de relaxamento. Na nossa cultura, o trabalho com o corpo é em geral motivado pela estética. Assim, é com pesar que eu vejo algumas revistas dizendo que a prática da ioga é boa para evitar celulite e tirar ‘pneuzinhos’.”

 

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Alguns tipos de ioga

Hatha
Com ritmo mais tranquilo, a flexibilidade e a redução das tensões são o foco dessa modalidade, origem de outras. Inclui ásanas (posturas), pranayama (respiração),  shavasana (relaxamento) e dhyana (meditação).

Ashtanga Vinyasa
Baseia-se em seis séries de ásanas (posturas corporais) progressivamente mais exigentes, nas quais cada praticante trabalha em seu próprio ritmo. Requer bom preparo físico.

Iyengar
Prioriza o alinhamento dos ásanas e a consciência dos sistemas, como o esquelético e o muscular.

Power
Uma adaptação da Ashtanga Vinyasa para quem quer fazer uma prática não tão exigente, mas intensa. Através da
respiração e da execução de posturas combinadas com movimento, o praticante desenvolve resistência, força, flexibilidade, consciência respiratória, concentração e vitalidade. Comum em academias.

Viniyoga
As posturas físicas são sincronizadas com a respiração, em sequências montadas em função das necessidades de cada
praticante.

De Rose
Ênfase na qualidade de vida, por meio de reeducação respiratória e administração do estresse.

Kripalu
Tem três estágios: prática firme (foco no alinhamento, na respiração e na atenção), entrega (permanência nas
posturas, superando limites, aprofundando a concentração e o foco nos pensamentos e emoções) e meditação em movimento (as tensões internas são completamente eliminadas do corpo, levando à meditação).

Raja
Baseada na meditação. Por isso é considerada difícil para os ocidentais, já que o corpo tende a criar resistência na
prática da meditação.

Kundalini
Foca na consciência espiritual. Trabalha os chacras (centros de energia presentes no corpo) e dos nadis (canais de
energia do corpo).


Boa na gestação e após o parto

Alguns dos benefícios da ioga, como relaxamento, postura e respiração melhores, podem ser aproveitados também pelas gestantes. “A grávida passa por intensas transformações físicas e psicológicas, e os exercícios da ioga contribuem para ela ter maior percepção dessas mudanças, porque centram atenção no corpo e na mente”, afirma o ginecologista e obstetra Aléssio Calil Mathias, do Hospital São Luiz.

Alguns exercícios feitos ainda no começo da gravidez ajudam a futura mamãe a ficar com movimentos menos restritos ao final da gestação. O crescimento da barriga força alguns músculos e desloca a coluna e as costelas. Esses incômodos causam dor e também podem ser aliviados pela prática frequente. De acordo com Mathias, a ioga costuma trazer alívio em até 80% dos casos.

No aspecto emocional, os exercícios podem ajudar a controlar a ansiedade e o medo na hora do parto. “Nas sessões, a gestante mentaliza o momento do nascimento e treina posturas e respirações que a ajudam a suportar melhor as contrações e a facilitar a expulsão (do bebê), e tudo isso reduz o medo, um dos principais entraves ao trabalho de parto”, afirma o obstetra. A ajuda se estende inclusive para o pós-parto, diminuindo riscos de depressão.

Mas nem todos os exercícios são recomendados. Alguns podem, por exemplo, aumentar os batimentos cardíacos da gestante. Para saber as posturas apropriadas em cada fase, Mathias recomenda contato periódico com o obstetra.


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