Quando a solução vira problema
Brasil registra mais casos de intoxicação por remédio do que por veneno ou agrotóxico; mistura de medicamentos agrava o problema
por Manuel Alves Filho
A sabedoria popular cunhou a máxima segundo a qual o que difere o remédio do veneno é a dose. Ainda que o adágio seja largamente conhecido, muitos brasileiros parecem não se dar conta dos perigos decorrentes do uso indiscriminado de medicamentos. Dados oficiais mostram que, no Brasil, intoxicação por remédios é mais comum do que por venenos, agrotóxicos, produtos químicos ou de limpeza.
A origem desse grave problema de saúde pública, conforme os especialistas, está ligada a vários fatores. Envolve prática disseminada da automedicação, emprego combinado de medicamentos sem os devidos cuidados, prescrição médica equivocada e até mesmo consumo inadvertido de fitoterápicos — que muitas vezes são tidos como inofensivos, mas podem causar malefícios, principalmente quando associados a determinadas drogas.
Em 2007, último ano com estatísticas consolidadas, foram registrados no país 112.403 casos de intoxicação humana, segundo o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas, vinculado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A maior parte deles, 34.068 (30,31%), foi causada por fármacos. Dessas vítimas, 90 morreram.
Na opinião do professor de Medicina Social José Augusto Cabral de Barros, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o uso abusivo de medicamentos é um fenômeno universal, mas é mais comum em países em desenvolvimento, como o Brasil, onde a difusão de informações científicas ainda é incipiente.
“Há uma crença exagerada por parte da sociedade tanto no poder dos fármacos quanto na sua inocuidade, o que leva ao consumo exagerado. Some-se a isso a influência que as indústrias farmacêuticas exercem por intermédio dos meios de comunicação e a deficiência de controle, por parte das autoridades sanitárias, sobre a cadeia do consumo, e temos um cenário favorável ao agravamento do problema”, afirma o médico, que também é membro do Conselho Diretor da Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos (Sobravime).
Coordenador executivo da mesma Sobravime, o médico sanitarista José Ruben de Alcântara Bonfim observa que esse é um problema ao qual mesmo os profissionais de saúde precisam ficar mais atentos. “A primeira pergunta que um médico deveria fazer ao paciente durante uma consulta, antes de qualquer prescrição, é qual o remédio que a pessoa está usando. Remédio, nesse caso, refere-se tanto a itens prescritos quanto os de venda livre, fitoterápicos e chás caseiros”, comenta.
Tal cuidado é importante porque determinadas substâncias presentes nos fármacos podem interagir de modo negativo, potencializando o efeito de um princípio ativo ou, ao contrário, reduzindo a sua ação. O resultado, nesses casos, pode ser a intoxicação ou a perda de eficácia no tratamento. “O medicamento que cura é o mesmo que intoxica e mata”, resume o presidente do Conselho Federal de Farmácia (CFF), Jaldo de Souza Santos. Por isso, ressalva, os usuários devem ser devidamente orientados sobre a administração desses produtos.
MISTURAS EXPLOSIVAS Santos dá um exemplo. Frequentemente os usuários de varfarina (anticoagulante indicado para o tratamento de tromboses) não sabem que o emprego associado desse fármaco com ácido acetilsalicílico (princípio ativo de remédios como Doril, Aspirina, Engov e Melhoral) pode provocar sangramentos.
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Os medicamentos que causam o maior número de intoxicações são os benzodiazepínicos (calmantes), os antigripais, os antidepressivos e os anti-inflamatórios, de acordo com o presidente do CFF. Ele alerta que a intoxicação por uso de remédios é especialmente perigosa para os idosos. Pessoas com idade avançada normalmente apresentam um metabolismo mais lento, o que faz com que a excreção dos fármacos pelo organismo também seja mais morosa. “É por essas e outras razões que o diagnóstico de qualquer enfermidade deve ser feito com o máximo de precisão científica. Uma regra de ouro dentro da prática médica é: não se deve prescrever nada ao paciente sem um diagnóstico presumível ou de certeza. Em grande parte das vezes, em verdade, as principais providências devem ser não farmacológicas”, completa José Augusto Barros, da UFPE.
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A mistura torna-se ainda mais explosiva quando envolve remédios e álcool ou drogas ilícitas. A presidente do
Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), Raquel Rizzi, lembra, por exemplo, que a mescla de anticoncepcional com álcool pode ampliar os eventuais efeitos deletérios causados pelo primeiro, como câncer de mama. Já o emprego do ácido acetilsalicílico simultaneamente com bebidas alcoólicas pode levar ao sangramento do estômago.
Outra ideia erroneamente disseminada entre a população é a de que, se não fizerem bem, os chazinhos receitados por nossas vovós para dor de estômago ou insônia também não farão mal. João Ernesto de Carvalho, coordenador da Divisão de Farmacologia e Toxicologia do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), adverte que o uso indiscriminado de plantas medicinais pode, sim, trazer efeitos nocivos ao organismo humano. Ele assinalada que substâncias presentes em algumas espécies podem, por exemplo, interagir negativamente com certos medicamentos empregados no tratamento de doenças crônico-degenerativas, como diabetes e hipertensão, prejudicando o processo terapêutico.
Pesquisas recentes mencionadas por Carvalho indicam que um prosaico suco de toronja, fruta também conhecida como grapefruit, contém um elemento que interfere na metabolização de uma série de drogas, entre elas anti-hipertensivos e antimicrobianos. “Por conta dessa interação negativa, há uma tendência de que o fármaco se acumule no organismo do paciente, o que pode levar a um quadro de intoxicação variável, de menor ou maior gravidade.” Ainda segundo o especialista da Unicamp, o alho, largamente consumido da forma de óleo encapsulado, pode igualmente interagir de modo adverso com antivirais, minimizando a sua ação, o que pode ser particularmente danoso para os portadores de HIV/Aids.
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AO ALCANCE DAS CRIANÇAS O quadro delineado pelos entrevistados ganha ainda mais gravidade a partir dos resultados de uma pesquisa desenvolvida para a tese de doutoramento da enfermeira Francis Solange Vieira Tourinho, defendida na Unicamp. O trabalho apontou que a automedicação é uma prática comum também entre crianças e adolescentes. De acordo com o estudo, apresentado por ela como o primeiro do gênero no país, 56,6% da população com idade igual ou menor de 18 anos de Limeira e Piracicaba, cidades paulistas, haviam consumido remédio sem prescrição médica nos 15 dias anteriores à investigação. Foram visitadas, por amostragem, 1.756 residências e aplicados 772 questionários nos dois municípios.
Na maioria dos casos (51%), o medicamento havia sido indicado pela mãe. Outros 20% dos entrevistados informaram que a recomendação havia partido do balcão das farmácias, enquanto apenas 1,8% afirmou que a automedicação fora estimulada pela propaganda na mídia. Ainda conforme o estudo, em 15,3% das vezes o emprego dos remédios se deu com base em receitas antigas.
Não por outra razão, CFF, CRF-SP e Sobravime são unânimes no apoio à recente deliberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que obrigou as farmácias e drogarias a manter os medicamentos fora do alcance do consumidor. “Esta é uma decisão acertada, mas insuficiente para enfrentar o problema do uso indiscriminado de remédio por parte da sociedade. Junto com essa medida, é preciso intensificar as ações de esclarecimento da população”, cobra Jaldo Santos, do CFF.
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Misturas perigosas
Anticoncepcional e bebidas alcoólicas
Aumento dos efeitos colaterais do medicamento, como o câncer de mama
Anticoncepcional e vitamina C (acima de 1 grama)
Aumento, no sangue, dos níveis do hormônio contido no remédio
Ácido acetilsalicílico e bebidas alcoólicas
Aumento do risco de sangramento no estômago
Tetraciclina, metronidazol, ampicilina, eritromicina e anticoncepcionais orais
Redução da eficácia dos contraceptivos, aumentando o risco de gravidez
Metronidazol e álcool
Surgimento de sintomas como rubor, palpitações, dispneia
(problema respiratório), aumento da frequência cardíaca e sonolência
Varfarina e anti-inflamatórios não esteroides
Risco de sangramento
Paracetamol
A superdosagem pode ocasionar necrose hepática. Associado a anti-inflamatórios não esteroides, pode ter seus efeitos terapêuticos potencializados, o mesmo ocorrendo com seus efeitos tóxicos
Dipirona sódica
A alta dosagem pode causar reações como hipersensibilidade, que pode produzir transtornos hematológicos
Ácido acetilsalicílico
O uso excessivo pode gerar náuseas, vômitos, diarreia, gastrite, hemorragia gástrica e urticária
Fontes: Conselho Federal de Farmácia e Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo
Remédio é coisa de gente grande
Se para adultos os remédios já podem se tornar uma combinação explosiva, é preciso ainda mais cuidado quando eles são dados a crianças. A maioria dos medicamentos, por questões éticas, não é testada em pessoas dessa faixa etária e, por isso, as reações para esse grupo nem sempre são conhecidas.
“Os dados obtidos em adultos não podem ser extrapolados para crianças, pois a biodisponibilidade, a maturação de órgãos, a eficácia e os efeitos colaterais são distintos em pacientes adultos e pediátricos”, explica o farmacêutico e bioquímico Gustavo Silva Affonso, da unidade Anália Franco do Hospital São Luiz.
Não à toa, a maioria dos fármacos traz, na bula, indicação para não ser ministrado a quem tem menos de 2 anos. Grande parte dos medicamentos vendidos em forma líquida não apresenta concentração que possa ser calculada para crianças. Por outro lado, muitas doses sólidas formuladas para adultos não são facilmente adaptadas para pacientes pediátricos.
E há também os remédios que trazem substâncias contraindicadas para crianças. “Em pediatria, devem ser evitados remédios que contêm substâncias como álcool benzílico, fenol, propilenoglicol e sulfito, que causam reações adversas”, diz Affonso.
Apenas entre 20% e 30% dos medicamentos aprovados pela FDA (Food and Drugs Admnistration, a agência norte-americana que regula o setor) têm indicação para uso pediátrico, destaca o farmacêutico.