Brincando de Santos Dummond


Brincando de Santos Dummond

Mais baratos e mais simples de montar, novos kits de aeromodelismo facilitam a vida de quem quer construir e pilotar aeronaves, sem tirar os pés do chão

por Marcelo Osakabe

Sempre que consegue um horário livre antes das cirurgias, o ortopedista Aires Duarte Junior pega o carro e vai até o clube que fica perto de um dos hospitais onde trabalha. Lá, pilota aviões por duas, três horas. Não, não se trata de um dono de jatinhos, nem de um comandante nas horas vagas. Ele aderiu a um hobby, ou esporte, que tem mais de 10 mil praticantes no país, segundo a Confederação Brasileira de Aeromodelismo (Cobra).

Apesar de requerer bastante concentração — afinal, é preciso fazer manobras a até 400 metros de distância com um aviãozinho que chega a pelo menos 60 quilômetros por hora —, o aeromodelismo é considerado relaxante pelos adeptos. “Faço isso para esfriar a cabeça”, afirma o médico.

“A maioria das pessoas busca uma atividade de escape, e cai no aeromodelismo ou por acaso ou porque tinha uma paixão antiga pela aviação”, conta Ricardo Apoloni, diretor do aeroclube União Bandeirante de Aeromodelismo.

Adam Tinney

Ele mesmo é um dos que “caiu de paraquedas” na área. Há oito anos, esse dono de uma empresa de informática teve síndrome do pânico, consequência do trabalho excessivo. “Noventa por cento da minha recuperação se deve ao aeromodelismo”, diz.

Não se sabe exatamente quando o hobby foi introduzido no Brasil. O certo é que em 1936, em São Paulo, já se vendia material para a confecção de aeromodelos. O primeiro campeonato paulista da modalidade foi realizado em 1942, no Campo de Marte. Na época, um dos lugares de reunião dos entusiastas era o cruzamento da avenida Rebouças com a rua Iguatemi, hoje avenida Brigadeiro Faria Lima. Com o tempo, entretanto, o número cada vez maior de construções os obrigou a se mudar para cada vez mais longe.

Naquele tempo, a prática era um pouco mais complexa. Era preciso ser um pouco como Howard Hughes, retratado pelo diretor Martin Scorsese no filme “Aviador”: mais do que simplesmente dirigir um avião, era necessário construí-lo do zero, desde o projeto.

A empreitada de fazer modelo em escala a partir de um real durava até sete meses e requisitava diversos conceitos de aerodinâmica. Isso é feito ainda hoje por alguns aficionados, mas em número cada vez menor. Tudo por conta da facilidade para a compra de kits semiprontos, conta Apoloni.

Juntar asas, turbinas e outros dispositivos até formar um aviãozinho ainda faz parte da brincadeira, mas a tarefa é muito mais fácil do que há algumas décadas. Um dos efeitos é que é possível ter modelos mais sofisticados — um caça como o brasileiro Tucano, popular entre os nossos aeromodelistas — sem ser engenheiro. A introdução de kits (os RTF, ou ready to fly) também barateou o hobby.

Mas é falsa a ideia de que o aeromodelismo envolva necessariamente um aparelho de rádio cheio de botões. Essa não é a única maneira de se controlar um aeromodelo. Antes dele, a forma encontrada pelos praticantes para não verem seus aviõezinhos sumirem no horizonte foi o voo circular controlado, ou VCC, que, basicamente, significa prender ao aeromodelo dois cabos controlados pelo piloto, que se instala no centro de uma pista circular para comandar as manobras.

Apesar de ser mais limitada do que o seu irmão mais novo, controlado por rádio, e de ter perdido a preferência da maioria dos pilotos, a modalidade ainda continua forte no país, afirma Paulo Feixo, da Confederação Brasileira de Aeromodelismo. Uma de suas atrações é a modalidade combate, inexistente no rádio, em que dois aviões voam em direções opostas, cada um tentando cortar uma longa fita presa ao corpo do outro.

Um dos que trocaram o VCC pelo rádio foi o designer de capacetes Sid Mosca. Quando criança, na década de 1950, Sid era apaixonado pela aviação e sonhava ser piloto de caça. Sua mãe proibiu. “Então comecei a fazer aeromodelos, daqueles de elástico, que você gira a hélice e lança. Como achei que aquilo não resolvia, parti para aviões com motores, do tipo VCC”, lembra. “E me dedicava muito a isso. Ficava realizado.”

Mosca é conhecido por ter criado o desenho de capacetes para pilotos famosos da Fórmula 1, como Ayrton Senna e o alemão Michael Schumacher. Foi de Senna (outro praticante do aeromodelismo), aliás, que ele ganhou um de seus primeiros modelos controlados por rádio.

COMO COMEÇAR Antes de mais nada, é importante conversar com praticantes, que podem dar dicas sobre o que adquirir, onde comprar e como começar. Uma maneira fácil de encontrá-los, se não conhecer ninguém, é ir ao aeroclube nos finais de semana e feriados, quando os aficionados costumam se reunir por horas a fio.

“Muitos consideram [o aeroclube] como uma família — todo mundo conversando, um querendo ajudar o outro”, afirma Farley Pedro de Lima, que cuida do Aerosampa. “É quase como churrasco, só que o que você menos faz é comer carne. No começo, o cara tem é vontade de voar, mas depois prevalece o ambiente de clube, de troca de ideias, de piadas”, complementa Apoloni.

Em vários desses aeroclubes há instrutores informais, que podem ou não dar uma ajudinha. Em alguns casos, oferecem aulas usando equipamento próprio, um bom jeito de você não gastar dinheiro antes de saber se gosta mesmo do esporte.

Outra vantagem é que o comando do avião pode ser compartilhado entre dois rádios, como nos carros de autoescola (o instrutor pode liberar aos poucos o comando para o iniciante, o que ajuda a contornar os inevitáveis primeiros erros).

O número de aulas varia de acordo com o progresso de cada um. Elas são divididas basicamente em quatro etapas: voo, decolagem, aterrissagem e manobras. Farley estima que o curso tenha em média 28 lições, a custo de R$ 15 cada uma, em seu aeroclube.

Ao escolher seu primeiro modelo, não ceda à tentação de comprar logo os mais bonitos, como o Mustang P-51, avião de caça norte-americano usado na 2ª Guerra. O mais apropriado para o início é o trainer, que é simples, leve e plana bem. Os aparelhos mais avançados são mais difíceis de manter no ar e de pousar. Exigem muito mais atenção, o que também significa maior tensão por parte do piloto. Não por acaso, muitos não deixam encostados seus modelos iniciais, levando-os ao campo sempre que querem dirigir mais distraidamente.

O kit com aparelho trainer, rádio e motor varia hoje entre R$ 1.200 e R$ 1.800. Nos aeroclubes é possível também comprar componentes usados. Dessa forma, o pacote completo pode sair por R$ 500.

Embora sejam as peças mais caras do conjunto, motor e rádio não são exclusivos de um único avião — você pode fazer voar uma variedade de modelos com o mesmo par.

E não pense que você vai querer ter apenas um avião de cada vez. “A gente fala que quem vai para a pista com apenas um avião não vai com nenhum, porque, se por acaso der problema, você fica de mãos abanando”, recomenda Aires, que possui atualmente uma coleção de 16 modelos.

Onde começar

Aeroclubes
União Bandeirante de Aeromodelismo
Rua Naima Brein Siufi, 71 - Jardim Represa - São Paulo-SP.
CEP: 04826-140
Fone: (11) 5928-6173
http://www.ubaaero.com.br/

Aerosampa
Av. Chica Luiza, 1.687 - Jaraguá - São Paulo-SP. CEP: 05183-270
Fone: (11) 3945-5293
http://www.aerosampa.com.br/

Clube de Aeromodelismo de Santana
Rua Marechal Leitão de Carvalho, 15 - Santana - São Paulo-SP.
CEP: 02009-010
Fones: (11) 3673-6167 (seg-sex) e (11) 2221-6639 (sáb-dom)
http://www.casa-sp.org.br/

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