Sem sensação


Sem sensação

Avanços da anestesia, como aplicação com auxílio de ultrassom, fazem alívio da dor ser mais intenso e com duração cada vez mais precisa

por Frederico Rosas

Fotos Sean Prior

Você vai ser submetido a uma cirurgia e, para aliviar a dor, seus únicos aliados são ópio, vinho e plantas, misturados e colocados em uma esponja sob seu nariz. Acordar com traumas e com uma ressaca daquelas vai ser inevitável. Era assim que Hipócrates, o pai da Medicina, aplicava anestesia no século 4 a.C. Coisas da Antiguidade? O método, com pequenas adaptações, perdurou por mais de 2 mil anos. Só no século 19 é que foi feita a primeira anestesia geral, por exemplo. Nas últimas décadas, a tecnologia avançou de fato na direção do objetivo principal desse tipo de procedimento: ter efeito intenso, para que o paciente não sinta dor, com duração precisa e com o mínimo de efeitos colaterais.

Não é difícil imaginar que, no futuro, será possível ser submetido a uma cirurgia entre afazeres diários como levar e buscar filhos na escola ou mesmo participar de reuniões de trabalho. “O objetivo é que o procedimento anestésico dure apenas o tempo necessário para a realização da cirurgia, e que depois o paciente esteja acordado, em boas condições”, avalia o coordenador científico e de qualidade em anestesia do Hospital São Luiz, Roberto Manara.

Nesse sentido, uma das grandes novidades é o uso do ultrassom, técnica não invasiva ou minimamente invasiva. Por meio da emissão de ondas sonoras de alta frequência, que depois são transformadas em imagens, o método permite que órgãos internos do corpo sejam visualizados em um monitor posicionado estrategicamente.

O equipamento já é conhecido por realizar outros exames – por exemplo, o que monitora o desenvolvimento do feto na barriga da mãe e torna possível saber o sexo do bebê ainda durante a gravidez. Agora, também permite que estruturas sensíveis, como artérias e veias, sejam identificadas em tempo real, servindo de parâmetro direto para que a anestesia seja aplicada no lugar certo.

“No caso de pacientes mais obesos ou com desvio de coluna, eu posso ver a estrutura anatômica em que estou atuando, para evitar quaisquer danos a áreas sensíveis”, resume Manara, que completou em 2009 cursos específicos para realizar o novo procedimento. Ele prevê que a técnica esteja disponível no São Luiz ainda neste ano, após um período de capacitação entre os médicos do hospital.

CALHAMBEQUE  Avanços como esse ajudam a revolucionar as cirurgias. Antes, pacientes com problemas na coluna, por exemplo, tinham de mexer os membros durante a operação para saber se o procedimento não estava deixando sequelas. Na pediatria, operações cardíacas adquiriram novo status — os custos frequentemente eram maiores que os benefícios.

“Eu costumo comparar a anestesia do passado a um modelo antigo de carro, sem cinto de segurança, airbag ou injeção eletrônica”, afirma o médico Newton Duarte, do São Luiz, que há 25 anos atua na área de anestesiologia.

Graças também aos recursos eletrônicos, indicadores como batimentos cardíacos, pressão arterial, temperatura do corpo, concentração de oxigênio no sangue e atividade cerebral passaram a ser analisados em tempo real — e simultaneamente. A qualquer sinal de alteração do quadro clínico, mecanismos de alarme possibilitam antecipar cuidados ou tratamentos específicos para controlar a situação.

A realidade é bem diferente da vivida até a década de 1960, quando o controle dos batimentos era feito por meio de pressão do dedo sobre o pulso, e o nível de “influência” do éter era medido pela pupila do doente.

Os avanços, no entanto, ainda não foram suficientes para deixar para trás a fama injustificada de “mau” do procedimento anestésico, baseada em um mito sobre falta de segurança. Atualmente, quando há um caso grave relacionado à área, este é tema de estudos internacionais, de tão raro. Segundo o chefe da equipe do São Luiz no setor, Milton Brandão, a média de mortes que podem ser atribuídas à anestesia é de 1 a cada 400 mil realizadas. Ainda assim, muitos chegam até a adiar cirurgias por receio da técnica.

“Os riscos da anestesia foram minimizados pela tecnologia. A evolução dos aparelhos foi muito grande, sobretudo para ventilar [substituir a aspiração natural de ar]”, diz Brandão.

VENCENDO O MEDO Para enfrentar de vez o medo da anestesia, nada melhor que conhecê-la um pouco. A palavra vem do grego e significa “sem sensações”. Os tipos principais são três: geral, regional e local. A primeira, como se sabe, atua no corpo inteiro. Já a regional é aplicada em áreas específicas, podendo o paciente ficar consciente. E a local abrange regiões ainda menores, para operações consideradas menos complexas, como dar pontos ou mesmo as realizadas na cadeira do dentista.

Os anestésicos, medicamentos que provocam perda total ou parcial da sensibilidade, podem ser aplicados por via endovenosa ou inalação. Para controlar a dose certa dos fármacos, um aparelho mede o índice bispectral, que aponta o grau de consciência do paciente. Isso é fundamental para uma das grandes tarefas da anestesiologia: impedir que os pacientes se recordem do que ocorreu durante a cirurgia, para evitar desconforto e o desenvolvimento de estresse pós-traumático.

Em meio a esses desafios, os profissionais têm ampliado sua área de atenção. Uma das bandeiras da Sociedade Brasileira de Anestesiologia é a inclusão da especialidade como prática perioperatória — abrangente ramo da medicina que se propõe a cuidar integralmente dos pacientes, antes, durante e depois da operação.

“A gente até dispõe da possibilidade de atender os pacientes com grande antecedência, para conversar sobre o procedimento. Ele pode receber um medicamento pré-anestésico para chegar em boas condições, mais relaxado. Mas sempre se faz necessária a presença de um anestesiologista de prontidão, da entrada até a saída do centro médico”, afirma Arthur Abib, médico do São Luiz especializado na área.

No período que antecede a cirurgia ou o exame, cabe ao anestesista, segundo a medicina perioperatória, apresentar ao paciente um plano geral do que será realizado. Nesse estágio é possível identificar algum tipo de problema pré-existente. Já durante a operação, a missão é zelar por condições clínicas e hemodinâmicas ideais. E, no pós-operatório, o objetivo é minimizar a dor e o desconforto. “Tudo passa pela nossa mão antes. Servimos como uma espécie de filtro às outras áreas da medicina”, compara o anestesiologista Renato Borega, também da equipe do São Luiz.

Vale lembrar apenas que a anestesia não pode ser realizada por profissionais sem habilitação e em locais não apropriados. A geral nunca deve ser feita fora de hospitais, pois neles o paciente poderá contar, em caso de complicações, com acesso direto e urgente a equipes de cirurgiões, à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e a exames de diagnóstico de imagem.

Afinal, não há por que querer correr, hoje em dia, riscos semelhantes aos da época de Hipócrates.

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