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Intensiva, mas humana

Diagnóstico

Intensiva, mas humana

 

As diferentes especialidades do médico Haggéas Fernandes o levam a defender um novo modelo de UTI, que incentiva o contato com familiares

 

por Paula Montefusco
Foto: Paulo Pampolin/Hype

 

NA MEDICINA, PODE-SE  escolher uma área muito restrita. Um ortopedista, que já é especializado em ossos, ligamentos, músculos e articulações, pode fechar o foco ainda mais e tratar só de joelhos. Mas há os que se dedicam a mais de um tema, ampliando o escopo da sua atuação e relacionando os diferentes campos.

 

E foi assim com Haggéas da Silveira Fernandes. Filho de um amazonense e de uma carioca, mudou de cidade várias vezes durante a infância – a família passou por Manaus, pelo Rio de Janeiro e, finalmente, estabeleceu-se em São Paulo, em 1989. Aos 12 anos, veio a certeza de que seria médico. “Na escola, tinha afinidade com a área de biológicas e sempre gostei de pesquisas, e isso me motivou a pensar em seguir essa carreira”, relembra.

 

Curiosamente, o gosto pela medicina tinha a concorrência de uma área um tanto diferente. “Cogitei em algum momento ser piloto, por gostar do mecanismo de comando de um avião.” Motivado pela nova perspectiva, Fernandes se aprofundou nessa área, acompanhando pousos e decolagens de dentro de cabines. A experiência lhe trouxe conhecimentos específicos. Sacolejar num avião, por exemplo, não é algo que lhe incomode. “O avião tem mecanismos para evitar a turbulência grave. E passar pela turbulência leve ou moderada é o jeito dele de voltar ao seu estado inicial”, explica, com propriedade.

 

Mesmo seguindo sua aspiração inicial pela medicina, durante a faculdade os múltiplos interesses se encontraram. Haggéas cursou a Universidade Federal do Amazonas e fez residências em São Paulo, no hospital Beneficência Portuguesa, e na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde se especializou em medicina intensiva. A terapia intensiva, área que requer conhecimento relacionado a diversas especialidades, não era um curso à parte: era preciso, antes, estudar três anos de anestesia ou dois de clínica ou de cirurgia. E foi esta a sua opção. Por via das dúvidas, cursou também gastroenterologia, com especialização em endoscopia, colonoscopia, fez residência em cirurgia, além de MBA em gestão de saúde.

 

Com tantas especializações, em 2002 ele foi convidado a comandar a UTI de um hospital de São Bernardo do Campo (SP). Tomou gosto e optou por se dedicar exclusivamente ao estudo e à prática dessa, que é uma das áreas mais estressantes e de maior desgaste emocional da medicina, por lidar com pacientes que, muitas vezes, sofreram acidentes, tentaram suicídio, estão em pós-operatório ou são idosos com infecção generalizada. “Durante a residência, estagiei em uma unidade de choque [setor que recebe pacientes mais graves de uma UTI] e vi que o meu destino era trabalhar, estudar e entender um setor complexo, como a UTI.” Assim surgiu a oportunidade para chefiar outras unidades. Hoje, Haggéas é médico intensivista e coordena a UTI adulto do Hospital e Maternidade Brasil, em Santo André, da Rede D’Or São Luiz.

 

A nova colocação motivou-o a cursar um MBA em gestão hospitalar, na Fundação Getulio Vargas. “Não queria ser apenas um bom médico. Por isso, venho me dedicando a essa área de gestão cada vez mais.” Ele se prepara para continuar a estudar o tema em julho, quando viaja para os Estados Unidos, onde fará uma pós-MBA na Universidade da Califórnia.

 

HUMANIZAÇÃO Sua rotina é bem agitada. Acorda às 4h45, vai a dois hospitais, visita os pacientes e cuida da gestão das unidades. Mesmo assim, faz questão de reservar sempre uma parte de seu dia para conversar com as famílias dos internados, tarefa essencial para o seu trabalho. “Sentir as necessidades de cada um é algo que gosto muito de fazer”, justifica. “Na UTI cirúrgica, vejo os pacientes diariamente, converso e tento dar um pouco de conforto a todos.” A ideia é manter o foco no paciente, demonstrando que é possível que ele se sinta acolhido mesmo em um ambiente tido como hostil.

 

A humanização da UTI tem sido uma das atuais causas defendidas por Fernandes, que se dedica a disseminar o conceito mundial de trazer a rotina do paciente ao hospital, particularmente nesse setor, para humanizá-lo. Para ele, as visitas devem ser incentivadas e o contato com a família o mais frequente possível. “Isolar o setor prejudica a pessoa, que está longe da família, rodeada por estranhos, sob temperatura baixa, luz acesa e ruídos 24 horas por dia. Ela pode enfrentar um estresse pós-terapia intensiva, como se tivesse passado por um trauma físico”, resume o médico.

 

O modelo defendido por Haggéas visa melhorar o atendimento e manter o foco na qualidade de vida dos pacientes. Há, por exemplo, aparelhos de TV ou rádio para eles se distraírem, lugar para a família ficar e uma equipe treinada para lidar com os visitantes – frequentemente ansiosos e cheios de dúvidas sobre o que está sendo feito.

 

Por meio de sua experiência, o especialista viu na humanização mais uma possibilidade de oferecer ao paciente recuperação rápida e sem sequelas. Para isso, a ideia é tratá-lo o mínimo possível como doente. A alta em menor tempo, explica ele, ajuda a diminuir o número de mortes por sepse – uma grave inflamação que ocorre como resposta a um agente infeccioso e que é a principal causa de morte em UTIs.

 

No Hospital e Maternidade Brasil, Haggéas se vê apenas como uma parte do processo para a recuperação do paciente. A execução do trabalho é multidisciplinar: depende de diversos profissionais, como farmacêuticos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e fonoaudiólogos. “Temos uma lista que é preenchida durante a visita. Existe espaço para cada um exprimir sua opinião. Essa troca entre os profissionais é extremamente importante. Depois disso, sentam as oito pessoas em uma mesa e os casos são analisados para gerar o plano assistencial e decidir o que vai ser feito com cada paciente”, explica o médico.

 

O resultado do trabalho não poderia ter sido mais positivo: a UTI, bem como todo o Hospital Brasil, recebeu recentemente o selo de certificação nível 3 pela Organização Nacional de Acreditação (ONA). Esse reconhecimento atesta a segurança e os serviços prestados no estabelecimento seguem padrões nacionais de qualidade e de excelência.

 

PINK FLOYD Além de atender os familiares, outro momento importante de seu dia é o tempo reservado para a família: esposa e um casal de filhos, de 10 e 6 anos. Nos finais de semana, Fernandes se reveza entre os próprios estudos e o dos filhos, repassando principalmente matérias como história, geografia e ciências. “Há uns três anos, li para os dois o livro Reinações de Narizinho, acho que toda criança tem que conhecer Monteiro Lobato”, acredita. O esporte também faz parte da rotina de passeios. Palmeirense, costuma levar o filho mais velho ao estádio para assistir ao time do coração em campo.

 

Mas não só a medicina intensiva e a família dividem a paixão de Fernandes. Ele cultiva uma longa relação “paralela” com o rock n’ roll, expressa em uma coleção de aproximadamente 400 vinis e mais de 5 mil CDs, onde se encontram grupos dos anos 70, como Lynyrd Skynyrd, Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath, passando por gravações raras de Bob Dylan, Janis Joplin, bandas alemãs e suecas pouco conhecidas e chegando a representantes do rock progressivo argentino. O álbum predileto do médico é o que leva o título The Dark Side of the Moon, ícone do grupo britânico Pink Floyd. “Junta uma banda que eu adoro com músicas que são... Nem sei explicar, é um marco na história do rock”, defende, com entusiasmo.

 

E por que não associar o rock à terapia praticada na UTI? “Sei que existem projetos de musicoterapia em UTI, porém não é algo usual. Não tenho experiência com isso, mas acho que num processo atual de humanização ela pode ajudar os pacientes, especialmente os neurológicos, e tornar o ambiente mais amigável”, defende o médico. 

 

No que depender de Haggéas, ações de humanização continuarão a ser implantadas nas Unidades de Tratamento Intensivo colaborando para que a área deixe de ser um lugar de onde só se recebe más notícias.