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Comida Sustentável

Planeta saudável

 

 

Comida Sustentável

 

por Valmar Hupsel Filho

 

Quem consome alimentos orgânicos ou cuja produção causa menos impacto ao meio ambiente contribui para garantir a saúde do próprio corpo e do planeta

 

Dizem que uma boa alimentação está diretamente relacionada à qualidade de vida. Mas quais são os tipos de comida que fazem bem à saúde tanto de quem os consome quanto do planeta? Afinal, comer e viver bem fazem parte do mesmo conceito de vida saudável.

Comer bem não significa apenas trocar os alimentos industrializados e gordurosos pelos naturais. Quem deseja ter uma alimentação saudável deve prestar atenção à qualidade do produto desde o início da cadeia produtiva, afirma o médico nutrólogo Celso Cukier, da unidade Morumbi do Hospital São Luiz.

 

Para quem busca alimentos saudáveis e sustentáveis, a melhor opção são os orgânicos, afirma Cukier. “Toda produção que busca ser sustentável tende a ser mais saudável. E quanto mais na forma integral o alimento estiver, melhor”, afirma. Mas o consumidor deve ficar atento à procedência até mesmo desse tipo de alimento, ressalta o nutrólogo. “Eu posso produzir uma maçã orgânica no quintal de minha casa, mas ela certamente estará cheia de pragas e problemas”, exemplifica.

 

Além disso, a “sustentabilidade” da cultura orgânica não é uma unanimidade. Uma das principais críticas deve-se ao fato de ter produtividade inferior à das culturas não-orgânicas, por não utilizar produtos químicos, o que causaria maior demanda de terras para o cultivo e mais impacto na natureza. “Esta é uma discussão aberta. Nem sempre aquilo que é bom para a saúde ou para o meio ambiente é importante do ponto de vista macroeconômico”, pondera Cukier.

 

Entretanto, seus benefícios são inegáveis. A produção orgânica busca reduzir o impacto da agricultura e pecuária sobre o meio ambiente – e as pessoas. Os alimentos são cultivados ou criados de forma a manter e repor a fertilidade do solo sem que para isso sejam utilizadas substâncias que poluem água, terra e ar ou causam doenças nos seres humanos, como agrotóxicos, pesticidas sintéticos ou fertilizantes químicos.

 

Esse tipo de alimento também é processado sem ingredientes artificiais, conservantes ou irradiação. Seu consumo reduz a exposição aos inseticidas sintéticos, fungicidas e herbicidas, hormônios de crescimento e antibióticos ou alimentos geneticamente modificados. Além disso, o conceito de produção orgânica está associado a boas práticas em geral, como o respeito às leis trabalhistas na relação entre fazendeiros e trabalhadores da lavoura, por exemplo.

 

“A não utilização de agrotóxicos na produção de alimentos tem efeitos positivos diretos na alimentação”, afirma a nutricionista Tânia Kinasz, professora do Departamento de Alimentos e Nutrição da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

 

No mundo todo, a tendência é de crescimento da demanda por alimentos orgânicos. E neste campo o Brasil se destaca como um dos mais importantes produtores em termos de área plantada, conforme aponta um estudo realizado por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), em Piracicaba.

 

A quantidade e variedade de orgânicos que chegam ao público consumidor, entretanto, ainda são pequenas diante do enorme volume de alimentos produzidos de forma não sustentável. Por isso, geralmente têm preço médio mais elevado que os convencionais.

 

Pesquisa concluída em 2011 pela economista doméstica Edinéia Dotti Mooz, sob orientação da professora Marina Vieira da Silva, do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição (LAN) da USP, em Piracicaba, concluiu que o nível de renda é fator relevante ao consumo de alimentos orgânicos. Segundo a pesquisa, existe uma relação direta entre o aumento da renda e a disponibilidade domiciliar desses produtos em todas as regiões brasileiras. Consumir alimentos orgânicos, portanto, ainda é uma questão de opção para quem tem condições e se dispõe a pagar um pouco mais.

 

CULTURAS DE MENOR IMPACTO Isso não quer dizer que quem não pode comprar orgânicos não deve comer frutas, verduras e legumes. É só ficar atento às culturas que, produzidas de maneira não sustentável, causam menor impacto, seja na saúde ou no meio ambiente.

 

Uma pesquisa realizada pelo Observatório da Indústria de Agrotóxicos, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), calculou quais são as culturas que mais utilizam substâncias como herbicidas, inseticidas e fungicidas no Brasil. Os pesquisadores utilizaram dados divulgados em 2009 pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag), que apresentavam uma estimativa do consumo de agrotóxicos por cultura no Brasil em 2008. Eles, então, cruzaram esses números com a área plantada de cada produto no país de acordo com levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2009. Ao fazer isso, elaboraram uma estimativa de quantos quilos de agrotóxicos são utilizados, em média, por hectare de cada cultura no país.  

 

De acordo com os cálculos dos pesquisadores da UFPR, os alimentos cujos cultivos mais consomem agrotóxicos são maçã (129 kg/ha), tomate (100 kg/ha), batata (58 kg/ha), laranja (47 kg/ha), soja (15 kg/ha) e café (10,4 kg/ha). Na outra ponta da tabela, as culturas que utilizam menor quantidade de agrotóxicos são as de feijão (3 kg/ha), banana (3,6 kg/ha), arroz (4,3 kg/ha), trigo (5,3 kg/ha) e milho (6,8 kg/ha). 

 

Essas medidas, no entanto, se referem apenas aos produtores que obedecem as leis e utilizam produtos liberados pelo Ministério da Agricultura, dentro dos limites estipulados para cada cultura. Infelizmente, há muita gente que não segue essas determinações.

 

Desde 2001, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) monitora a produção de 18 alimentos para medir a quantidade de resíduos de produtos não autorizados ou acima dos limites permitidos em cada cultura. Entre as culturas monitoradas pelo Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para) em 2010, as com maior incidência irregular de agrotóxicos no Brasil são, nesta ordem: pimentão, uva, pepino, morango, couve, abacaxi, mamão, alface, tomate e beterraba. Entre os itens analisados pela Anvisa, a batata foi o único alimento que apresentou incidência zero de uso irregular de agrotóxicos. Para reduzir a exposição a essas substâncias, a Anvisa sugere o consumo de alimentos da época ou produzidos de acordo com os princípios da agricultura orgânica ou agroecológica.

 

A POLÊMICA DA CARNE O prato mais tradicional do brasileiro, o trivial feijão com arroz, aparece, então, como uma das melhores opções entre os alimentos produzidos de maneira não orgânica. Mas se nesse prato for colocado um bife, cria-se uma grande controvérsia sobre a qualidade ambiental da refeição.

 

O prato mais tradicional do brasileiro, o trivial feijão com arroz, aparece, então, como uma das melhores opções entre os alimentos produzidos de maneira não orgânica. Mas se nesse prato for colocado um bife, cria-se uma grande controvérsia sobre a qualidade ambiental da refeição.

 

Segundo uma pesquisa publicada pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em 2006, intitulada “A longa sombra do gado”, a indústria da pecuária seria uma fonte de emissão de gases estufa mais importante do que todos os trens, aviões e automóveis do planeta juntos. As premissas do estudo da FAO, no entanto, foram seriamente questionadas em 2010 por Frank Mitloehner, importante pesquisador do Departamento de Ciência Animal da Universidade da Califórnia em Davis (UCD). Ele é contra a ideia de que a redução da produção de carne vermelha seria benéfica para o meio ambiente e defende que a melhoria da qualidade técnica desse tipo de alimento já representaria uma redução significativa nas emissões de gases estufa.

 

No Brasil, país com o maior rebanho bovino comercial do mundo (mais de 190 milhões de cabeças em 2006), 50% das emissões de gases causadores do efeito estufa têm origem na atividade pecuária. Esta foi a conclusão a que chegou o estudo interdisciplinar “Estimativa de emissões recentes de gases de efeito estufa pela pecuária no Brasil”, coordenado pela professora Mercedes M. C. Bustamante, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB), que contou com a participação de estudiosos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A maior parte da emissão vem do desmatamento e queimadas para criação e manutenção de pastagens e da fermentação causada pela digestão dos animais.

 

Como se vê, comer ou não carne ou optar por alimentos orgânicos ou com menor incidência de agrotóxicos é uma opção individual. Mas o fato é que se preocupar em ter uma alimentação que faz bem para a saúde do próprio corpo e do planeta é o primeiro passo para garantir uma vida mais saudável.