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Espanha de sangue quente

Rodando por aí

 

Espanha de sangue quente

 

por Walterson Sardenberg Sº

 

Em sua paixão pelos bares e pelo flamenco, Sevilha é uma sucessão de deliciosos petiscos

 

Sevilha tem 700 mil moradores. É a quarta maior metrópole da Espanha. Nessa lista, antes dela aparecem apenas Madri, Barcelona e Valência. Ainda assim, ao desembarcar na capital da região da Andaluzia no período da tarde, o visitante haverá de se perguntar, com uma nesga de decepção: “Poxa, onde está todo mundo?”.

 

Essa sensação de ter chegado a uma cidade modorrenta aumentará ainda mais caso o leitor tenha desembarcado de um lépido AVE, o trem-bala que faz o trajeto de 390 quilômetros entre Madri e Sevilha em somente 2h30, deixando a impressão de que as árvores retorcidas dos olivais passaram chispando pelas janelas.

 

A depender da época do ano, as tardes de Sevilha estarão ainda mais vazias. Sobretudo no verão. Compreende-se. Situada no sul da Espanha, esta é uma das cidades mais quentes da Europa. Alguém se deu ao trabalho de contar: são 2.998 horas de sol ao ano. Daí o sagrado recolhimento da população no período vespertino. Das 13h às 18h muitas vezes não se vê vivalma nas ruas menores. É o período da siesta, o inviolável interregno em que os moradores se dão o direito de fugir do calor.

 

Há quem descanse no belíssimo Parque María Luisa, construído no começo do século 20 para abrigar a Exposição Iberoamericana de 1929. Em frente ao suntuoso jardim público fica o Hotel Meliá Sevilha, que entre os dias 4 e 6 de abril vai receber o 5o Congresso Internacional de Medicina Reprodutiva do Instituto Valenciano de Infertilidade (IVI).

 

O resto do país vê no hábito da siesta um agudo grau de malemolência, quando não uma solerte resistência a pegar no batente. Resta ao sevilhano dar de ombros para a fama — e é o que faz. Mesmo porque, se as tardes são vazias, sob a sombra das laranjeiras que cobrem praças, ruas e avenidas, as noites avançam no comércio apinhado e nos bares não menos festivos, em virtude do descanso regenerador. Os historiadores sustentam ter nascido aqui outro costume, hoje estendido por toda a Espanha: tapear.

 

Não se trata de enganar o próximo. Tapear é verbo derivado do substantivo tapa, que significa uma porção de tira-gostos. Pode ser um pratinho de jamón (o esplêndido presunto espanhol), outro de queijo Manchego, mais um de croquetes de peixe ou de berinjelas embebidas no azeite com alho. Melhor ainda: em diversos botequins, as primeiras porções vêm à mesa ou ao balcão de graça, como acompanhamento da bebida.

 

Os incautos podem ser atraídos por bares moderninhos, onde, sentados em alguma cadeira trendy desenhada por Phillipe Starck, se provam tapas “fusion”. Tolice. Melhor seguir a tradição. Nas ruelas boêmias de Santa Cruz, a antiga judería — o bairro judeu — cintilam maravilhas como o Rinconcillo, bar aberto há 343 anos.

 

Por ali também se erguem os tablaos — assim como em outra área boêmia, a de Triana. Entendam-se por isso os endereços para apreciar outra bendita criação dessa região espanhola: os espetáculos de flamenco, música embalada pelas guitarras (tipo especial de violão), marcada pelas palmas e castanholas e enaltecida por dançarinos e dançarinas de destreza flamejante. O gênero se desenvolveu na mescla da arte cigana com uma das principais influências da Andaluzia: a cultura moura.

 

Antes dos muçulmanos, porém, vieram os vândalos. Eles se estabeleceram nessas terras calientes entre os anos 400 e 700. Por isso, o nome Vandalucía, mais tarde derivado para Andalucía. No final dessa ocupação, vindos do norte da África, chegaram os mouros. A partir daí, e pelos oito séculos seguintes, a Península Ibérica — e a Andaluzia, em especial — viveu uma experiência sem antecedentes ou sucedâneos. Trata-se da coexistência dos seguidores das três maiores religiões monoteístas: cristãos, judeus e muçulmanos.

 

Não que vivessem sem atritos. Longe disso. Mesmo assim, houve longos períodos de tolerância, em que se estabeleceram ricas trocas culturais. Mouros recorriam à medicina judaica. Judeus espelhavam-se na arquitetura árabe.

 

Tudo isso, no entanto, acabaria em 1492, quando os reis católicos Fernando e Isabel derrotaram o último reino mouro da Península Ibérica e expulsaram muçulmanos e judeus da região. Nesse mesmo ano Sevilha seria palco de outra grande virada histórica: foi dali, navegando pelo Rio Guadalquivir, que Cristóvão Colombo partiu para a viagem que o levaria à América.

 

Em outras cidades da Andaluzia — Córdoba e Granada, sobretudo — o legado mouro na arquitetura resistiu melhor. Mas em Sevilha sobraram mais do que resquícios. Até mesmo o majestoso palácio dos reis católicos, os Reales Alcázares – visita obrigatória – guarda importantes trechos mouriscos.

 

Também é assim na Torre del Oro, do século 13. A graciosa construção mourisca servia como ponto de vigilância para flagrar invasores no Guadalquivir. Hoje abriga um pequeno museu marítimo, no qual estão expostas miniaturas de embarcações históricas que circularam pelo porto da cidade.

 

Até mesmo o maior símbolo de Sevilha, a Torre La Giralda, é uma criação moura. Este deslumbrante minarete, que terminou de ser construído no século 12, fazia parte de uma mesquita. O templo muçulmano foi demolido no século 15 e sobre ele foi construída uma inacreditável catedral gótica, mas o minarete foi preservado e hoje é a torre mais alta da igreja.

 

Com uma estrutura central de cinco naves, 44 metros de pé-direito e o mesmo número de capelas, a Catedral é um monumento impressionante, erguido para demonstrar a soberania católica. A despeito da religião, não há quem visite Sevilha e não se surpreenda com o seu fausto.

 

Bem próximo da Catedral está o Archivo de Índias. Erguido no século 16, em estilo renascentista, para ser uma espécie de mercado, livrando as cercanias da catedral da heresia do comércio ambulante, tornou-se sede da Academia de Belas Artes, antes de acolher o maior acervo de documentos espanhóis sobre as expedições às Américas. São 86 milhões de páginas de registros sobre o Novo Mundo, incluindo o diário de Cristóvão Colombo.

 

É tão grandioso o acervo do prédio alçado a museu que mais da metade ainda não foi estudado. Mas não diga isso a um sevilhano, para quem tudo já foi devidamente digitalizado e analisado sob a lupa dos scholars.

 

Não é de bom tom, também, tratar as touradas como uma selvageria medieval. Na frente dos mais idosos, então, seria uma afronta. Sim, este esporte está em decadência na Espanha. Barcelona até desativou sua arena. Em Sevilha, no entanto, a plaza de toros   persiste como um dos templos da arte da tauromaquia.

 

Apaixonados, os defensores das touradas dizem que não há outro lugar no mundo onde um touro tem a chance de viver até os cinco anos e morrer com dignidade, sob os aplausos da plateia. Eles abrem exceção para a Índia. Com um adendo: embora sagrados, os touros indianos são esquálidos.

Apreciem-se ou não os argumentos, as touradas teimam em resistir em Sevilha. Assim como a siesta, a festa, o flamenco, o brandy vindo das vizinhanças (de Jerez de La Frontera), as tapas e as laranjeiras, elas fazem parte do espírito desta cidade vazia apenas à primeira vista. O poeta recifense João Cabral de Mello Neto morou 13 anos em Sevilha, servindo como cônsul do Brasil. Nem ele, um pregador do rigor da forma contra o mito da inspiração, resistiu aos encantos românticos: “Só em Sevilha o corpo está com todos os sentidos em riste/ Sentidos que nem se sabia, antes de andá-la que existissem”.

Onde ficar


Las Casas de La Judería: Um hotel único. Fica no velho bairro judeu e é formado por 27 antigas casas, conectadas por pátios internos e corredores. Tem piscina, aberta de junho a setembro. Para se sentir em casa. Calle Santa Maria La Blanca, 3, Santa Cruz, tel. (0034) 954-415150, www.casasypalacios.com

 

Hotel Palacio de Villapanes: Um palacete do século 18 convertido em hotel de luxo com decoração moderna — mas nem tão caro quanto pode parecer à primeira vista. Calle Santiago, 31, Santa Cruz, tel. (0034) 954-502063, www.almasevilla.com
 
El Rey Moro: Este aproveitou-se de uma construção ainda mais antiga. O prédio de três andares do hotel-boutique recomendado pelo jornal londrino Sunday Times é do século 16. Tem um amplo pátio interno, quartos acolhedores e restaurante especializado em cozinha da Andaluzia. Calle Lope de Rueda, 4, Santa Cruz, (0034) 954-563468, www.hotelelreymoro.com

 

Onde comer


El Riconcillo: Não é o melhor bar de tapas de Sevilha, mas o mais típico. Aberto em 1670, está nas mãos da mesma família desde 1858. Camarões fritos e bacalhau assado estão entre os pratos mais pedidos. Calle Gerona, 40, Santa Cruz, tel. (0034) 954-223183, www.elreconcillo.es

 

Al Aljibe: Restaurante animado, mas sem burburinho. Para quem quer só tapear, funciona bem. Melhor ainda para refeições completas, com destaque para o tartar de atum, o cochinillo (leitãozinho assado) e o bacalhau no azeite. Alameda de Hércules, 76, tel. (0034) 954-900591, www.alaljibe.com

 

Ovejas Negras: Este bar de tapas tem um pé na modernidade — a dona trabalhou com o festejado chef basco Martín Berasategui. Tira-gostos tradicionais, como berinjelas com parmesão, convivem com receitas exclusivas. Hernando Colón, 8, tel. (0034) 666-674338, www.ovejasnegrastapas.com