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Lutar com palavras, e com rótulos

Primeiros cuidados

 

Lutar com palavras, e com rótulos

 

por Claudia Zucare Boscoli, Paula Montefusco e Caroline Apple

 

A dislexia, transtorno ligado à leitura e à escrita, vem sendo diagnosticada de maneira incorreta, como resposta fácil às dificuldades escolares das crianças

De um lado, pais ansiosos que buscam uma resposta às dificuldades escolares de seus filhos. Do outro, um professor, médico, fonoaudiólogo ou psicólogo pressionado, com pouco conhecimento específico para entender sozinho a complexidade dos transtornos de aprendizagem. Dessa combinação é que vem surgindo uma epidemia de diagnósticos frequentemente equivocados e de consequência potencialmente perigosa – porque expõem as crianças a medicações desnecessárias e rótulos que podem interferir na formação de sua autoestima.

Um transtorno que vem sendo banalizado, segundos alguns especialistas, é a dislexia. Genética e hereditária, de origem neurobiológica, ela se caracteriza pela dificuldade na leitura, na escrita e na soletração. Compromete a capacidade de aprender a ler e escrever com correção e fluência e de compreender um texto. Disléxicos sofrem para associar o som à letra escrita. Também costumam trocar letras, por exemplo, b com d, ou mesmo escrevê-las na ordem inversa – “ovóv” ao invés de vovó.

Só que tais sintomas também podem se manifestar por questões emocionais, deficiências visuais e auditivas, pela imaturidade no processo da alfabetização (no caso de alunos em um nível escolar acima de suas capacidades), pela inadequação à metodologia usada na escola e até mesmo por outros distúrbios de aprendizagem, como o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Daí decorre a dificuldade de diagnóstico, que se reflete na elástica estimativa feita pela Associação Brasileira de Dislexia a partir de diferentes pesquisas em vários países: o porcentual de pessoas afetadas pela enfermidade pode variar de 0,5% a 17% em todo o mundo.

“As pessoas confundem com dificuldade de aprendizado, e essa dificuldade pode vir de inúmeros fatores”, afirma Paulo Breinis, professor de neuropediatria da Faculdade de Medicina do ABC e médico responsável pelo setor de neuropediatria de quatro unidades da Rede D’Or São Luiz: São Luiz Anália Franco, São Luiz Morumbi, Hospital da Criança e Hospital Brasil. “A criança pode ter problemas psicológicos por decorrência de bullying ou da separação dos pais, por exemplo. A doença pode ser confundida ainda com TDAH.”

Detecta-se dislexia por exclusão, segundo ele. “O diagnóstico é clínico, não existe um exame laboratorial que ateste a presença da dislexia.” A análise correta tem de ser multiprofissional. A fonoaudióloga Maria Angela Nico, coordenadora técnica e científica da Associação Brasileira de Dislexia, afirma que a avaliação precisa envolver um neurologista, um oftalmologista, um fonoaudiólogo, um neuropsicólogo e um psicopedagogo, além do auxílio do professor para relatar o dia a dia da criança na escola.

Esse cuidado é importante para evitar o trauma de um rótulo depreciativo. “Um diagnóstico errado pode afetar a vida social da criança”, comenta Maria Angela.

 

O TEMPO DE CADA UM Em 30 anos avaliando e acompanhando crianças diagnosticadas como disléxicas, a neurolinguista Maria Irma Coudry, professora do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), viu todas, sem exceção, serem alfabetizadas. E em nenhuma delas o diagnóstico se confirmou.  “A experiência tem mostrado que, quando a família consegue esperar o tempo da criança, estabelecendo com ela uma espécie de parceria, não há necessidade de buscar algum tipo de déficit como explicação”, afirma.

Para ela, o segredo é entender que há um tempo diferente de aprendizado para cada criança e métodos que funcionam melhor para cada uma. “Todas as crianças aprendem, mas nem todas do mesmo modo”, defende. Em sua opinião, há muitos interesses por trás da superestimativa da dislexia – da indústria farmacêutica à venda de material pedagógico e softwares segmentados. “Além disso, um diagnóstico, mesmo que equivocado, aquieta a angústia dos pais que peregrinam atrás de soluções para as dificuldades escolares de seus filhos”, pondera.

 

A HORA DE SE PREOCUPAR Como envolve dificuldade com escrita, somente quando a criança chega à alfabetização é possível fazer o diagnóstico da dislexia – preferencialmente depois dos 9 anos, de acordo com Paulo Breinis, da Rede D’Or São Luiz. Em geral, o primeiro alerta vem da escola. Mas os pais também devem ficar atentos a eventuais problemas dos filhos em fazer o dever de casa.

O disléxico tem dificuldade para estabelecer a relação entre os sons e sua representação visual. Por isso, a primeira disciplina prejudicada é Língua Portuguesa, mas o desempenho nas demais também pode ser afetado.

Em caso de suspeita, é preciso buscar ajuda especializada. Se constatado o transtorno, é fundamental que paciente, familiares e professores sejam conscientizados de que o portador de dislexia não é menos inteligente, apenas precisará de esforço extra no aprendizado.

“Não é questão de inteligência: uma pessoa com dislexia não tem a inteligência nem a criatividade afetadas. É uma questão de exigir um modo de aprendizado diferente por uma dificuldade específica”, aponta Breinis. Não há cura para o problema, mas a pessoa se adapta e desenvolve seu próprio método de aprendizado. Com o auxílio fundamental da escola: “Ajuda o professor que lê a prova, que dá mais tempo para prova, deixa a criança sentar na frente, faz provas orais”, exemplifica Maria Angela.

 

“O escolar com dislexia apresenta uma compreensão oral adequada e conservação do raciocínio lógico-matemático, permitindo o aprendizado global”, explica o fonoaudiólogo Fábio Henrique Pinheiro, integrante do Laboratório de Investigação dos Desvios da Aprendizagem (Lida) da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Também são recomendados terapia fonoaudiológica e reforço pedagógico. Os pais devem ainda buscar junto à escola direitos previstos em lei, que garantem ao disléxico uma avaliação diferenciada e uma monitoria específica para suas dificuldades.