Fechar
  • Unidade Itaim
    (11) 3040-1100
  • Unidade Morumbi
    (11)3093-1100
  • Unidade Anália Franco
    (11) 3386-1100
  • Unidade Jabaquara
    (11) 5018-4000
  • Unidade São Caetano
    (11) 2777-1100

Penso, logo sinto

Especial

 

Penso, logo sinto

 

Estudos de neurocientistas mostram que, ao contrário do que se pensou por muito tempo, razão e emoção estão interligadas, e do equilíbrio entre as duas é que nascem as melhores escolhas

 

Certamente você já ouviu conselhos como “decida racionalmente” ou “não deixe seu coração influenciar suas decisões”. Para boa parte dos pesquisadores de neurociências, essa é uma das maiores balelas cultivadas pela sociedade ocidental. Diferentemente do que se pregou por séculos, hoje se sabe que razão e emoção agem (e devem agir) sinergicamente.

 

Estudos recentes têm abalado um pilar que começou a ser erigido pela filosofia grega – tanto nas correntes que viam na paixão (pathos) a fonte da infelicidade quanto em Platão, que propôs a divisão entre o mundo sensível (uma falsa imagem da realidade,   captada pelos sentidos e deturpada pelas emoções) e o mundo das ideias (um conhecimento superior, racional e abstrato). Esses conceitos, ainda que com roupagem um tanto diferente, ganharam reforço no cristianismo e em suas distinções entre alma e corpo, matéria e espírito.

 

Uma contribuição decisiva veio do pensador francês René Descartes (1596-1650), com obras como “Meditações Metafísicas” e “Discurso sobre o Método” – livro em que cunhou a famosa frase “penso, logo existo”. Seu trabalho, e sobretudo o modo como foi interpretado ao longo dos séculos seguintes, dissocia razão e emoção, corpo e mente e foi um dos que mais influenciaram estudiosos na forma antiga de entender a relação entre os dois aspectos.

 

Se o próprio pensamento é prova de existência, argumentava o filósofo francês, é também a essência do ser humano. “Eu, isto é, a alma, pela qual eu sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo (...) e, mesmo que o corpo não existisse, ela não deixaria de ser tudo o que é”, escreve ele em “Discurso sobre o Método”.

 

Apenas na segunda metade do século 19 e no começo do 20 essas questões deixaram de ser assunto exclusivo da filosofia e passaram a ser estudadas pela biologia e por áreas então incipientes, como psicologia, psicanálise e, mais recentemente, neurociência. O interesse científico volta-se então aos processos cognitivos, às atividades mentais envolvidas na aquisição de conhecimento, nos processos de tomada de decisão.

 

Um importante ponto de inflexão nessa história se deu em 1994, quando o neurocientista português António Damásio, especialista em comportamento humano e hoje professor da Universidade do Sul da Califórnia, publicou “O Erro de Descartes” (no Brasil, editado pela Companhia das Letras). Na obra, ele pontua os erros do pensador francês na separação entre mente e cérebro.

 

INTERLIGAÇÃO  Damásio desconstrói alguns argumentos de Descartes ao lembrar, por exemplo, que antes do surgimento dos humanos já existiam outros organismos – obviamente, não pensantes. Além disso, salienta que o cérebro e o restante do corpo são “indissociavelmente integrados”, assim como a razão e a emoção. Segundo ele, os sistemas cerebrais necessários aos sentimentos estão “enredados” nos sistemas necessários à razão – e esses estão “interligados com os que regulam o corpo”.

 

“O amor, o ódio e a angústia, as qualidades de bondade e de crueldade, a solução planificada de um problema científico ou a criação de um novo artefato, todos eles têm por base os acontecimentos neurais que ocorrem dentro de um cérebro, desde que esse cérebro tenha estado e esteja nesse momento interagindo com o seu corpo”, escreve Damásio.

 

“A parte do cérebro que comanda a razão está, desde que nascemos, interligada com a parte da emoção. Nossa vivência e nosso meio cultural é que vão armazená-las e fazer com que elas venham à tona à medida que recebemos estímulos externos”, explica o psicanalista clínico Daniel Nozawa, professor de neurociência da Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrada.

 

Assim, em culturas em que as crianças são ensinadas a não demonstrar emoções, como a japonesa, a influência dos sentimentos pode ser menor “mas essa sinapse sempre acontecerá”, diz Nozawa. Os únicos episódios em que pessoas normais não conectam a razão à emoção seriam o que a psicologia chama de pulsão de morte. “São exemplos assim brigas de ruas ou de trânsito.”

 

HUMANOS, E NÃO RÉPTEIS Novos estudos de neurociência têm consolidado as hipóteses de Damásio. Em julho de 2011, a conceituada revista científica “Emotion Review” publicou um artigo com uma revisão a respeito desse tema. Um dos autores, o respeitado  pesquisador Jordan Grafman, chefe do departamento de neurociência cognitiva do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e Derrames dos Estados Unidos, afirma que um importante passo para o avanço na área foi a evolução dos instrumentos de neuroimagem, que permitem estudar o cérebro humano em pleno funcionamento. Antes, todos os testes eram feitos exclusivamente em animais.

 

Para o coordenador de Neurociências do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), Ricardo de Oliveira-Souza, coautor da revisão, esse de fato é um marco. Antigamente, estudavam-se répteis ou mamíferos, na tentativa de encontrar alguma forma de funcionamento similar ao cérebro humano. Vem daí, diz ele, a expressão “cérebro R”, de réptil, que se associava a pessoas que cometiam crimes a sangue-frio. “Isso simplesmente não existe”, refuta Oliveira-Souza. Hoje, sabe-se que pessoas que cometem delitos desse tipo são desprovidas de emoções morais, o que é de fato uma patologia. “E não há em nosso cérebro nenhuma sombra de cérebro de réptil, como algumas matérias sensacionalistas adoraram repercutir”, ressalta.

 

Pesquisas usando novas tecnologias reforçam a ideia de interligação ao detectar, por exemplo, que regiões do cérebro ligadas à razão (como o córtex pré-frontal dorsolateral) são ativadas por regiões ligadas à emoção (como o córtex pré-frontal ventromedial). Além disso, experimentos na área de psicologia indicaram que pessoas com lesão nessa parte do córtex relacionada à emoção tendem, diante de ofertas desonestas, a fazer escolhas mais emocionais.

 

“Ingênuo pensar os indivíduos da espécie humana pautando-se em avaliações de custo-benefício de suas condutas, prescindindo das emoções. Elas são balizadoras fundamentais das ações de todos nós”, resume um artigo encabeçado pela psicóloga Angela Donato Oliva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicado na revista “Psicologia: Teoria e Pesquisa”.

 

Isso significa que não se pode falar de decisões puramente racionais e que deliberações tomadas com maior influência da emoção não são, necessariamente, piores.

 

Oliveira-Souza explica, por exemplo, que os seres humanos têm emoções morais, como a emoção estética ou a capacidade de se indignar com atitudes de outros seres humanos – ou de admirá-las. “Essas capacidades são tão evoluídas como a razão e estão inseridas num sistema cultural. Sem elas, não ficaríamos extasiados diante de uma obra de arte, por exemplo, por mais que soubéssemos racionalmente da importância da obra para a história da arte”, esclarece.

 

Em resumo, ele diz que a razão não nos torna nada sem a emoção. “Tenho pacientes inteligentíssimos, mas que são capazes de passar o dia todo sentados em frente da televisão: precisam de quem diga a eles que devem tomar banho”, comenta Oliveira. Sem a emoção, estaríamos confinados a nós mesmos, não haveria estímulos que nos fizessem levantar da cama diariamente.

 

Pode-se afirmar que, para uma vida normal, não é possível reagir aos desafios do meio ambiente com emoções primárias. Sem a compaixão, por exemplo, seríamos todos déspotas. As emoções são uma parte indispensável da vida racional – elas é que permitem o equilíbrio das nossas decisões.
Oliveira-Souza gosta de citar uma referência pop para ilustrar os resultados dos estudos de seu grupo. Quem não se lembra do comandante Spock, da nave Enterprise, de Jornada nas Estrelas? Por não deixar as emoções interferirem em suas ações, ele seria o responsável pelo sucesso da tripulação nas missões. Certo? Segundo a neurociência, erradíssimo. “Se ele realmente agisse dessa forma, não teria entusiasmo para iniciar a jornada ou capacidade para elaborar qualquer estratégia”, diz o coordenador do IDOR. Seria a ruína da tripulação e o fim da saga da série.

 

Outra lição útil também vem da ficção, de um romance publicado em 1811 (curiosamente, pouco depois da morte de Immanuel Kant, filósofo alemão que aprofundou alguns aspectos do pensamento de Descartes). O livro de estreia da inglesa Jane Austen, “Razão e Sentimento” (também traduzido como “Razão e Sensibilidade”), narra as agruras de duas irmãs, a racional Elinor e a emotiva Marianne, que tentam, cada uma a seu modo, lidar com as dificuldades que o destino põe em seus caminhos. No parágrafo final, anota Austen: “Entre os méritos de Elinor e Marianne é preciso que se mencione, como o mais considerável, que, apesar de serem irmãs e vivendo quase pegado uma à outra, jamais houve um desentendimento entre elas”. 

 

Cartesianismo também contaminou medicina

O predomínio da ideia de que mente e corpo são separados tem forte reflexo na medicina. Para o neurocientista português António Damásio, um dos principais questionadores do ponto de vista cartesiano, na tradição médica ocidental “as consequências do corpo sobre a mente merecem atenção secundária, ou não merecem mesmo nenhuma atenção” – como escreve o especialista no seu livro mais conhecido, “O Erro de Descartes”.

 

A maioria das escolas de medicina, segundo ele, põe de escanteio as dimensões humanas e limita-se à fisiologia e à patologia do corpo. Isso implicou um aprofundamento dos estudos sobre medicina interna e das especialidades cirúrgicas. O cérebro entrou no radar médico como mais um órgão do corpo. “Mas seu produto mais precioso, a mente, não foi alvo de grande preocupação por parte da corrente central da medicina”, critica o português. “A medicina tem demorado a perceber que aquilo que as pessoas sentem em relação ao seu estado físico é um fator principal no resultado do tratamento.”

 

A “negligência” com que a medicina ocidental encara essas questões abriu caminho para a grande procura pela medicina alternativa, segundo Damásio. Está mais do que na hora, defende ele, de levar seriamente em conta “o ser humano como um todo”.