Via de mão dupla: equipe e aparelhagem da Rede D'Or São Luiz no GP Brasil de F1 são as mesmas oferecidas aos pacientes
Especial Fórmula 1

Via de mão dupla
Experiência no atendimento hospitalar diário ajuda a formar equipe médica de excelência no GP Brasil de F-1. Prática do socorro em autódromos reforça a capacitação dos profissionais na assistência aos pacientes
Por Bruno Meirelles
Fotos: Francesco Barale / Divulgação
Não são apenas os pilotos que precisam de velocidade e precisão para ter sucesso na Fórmula 1. Quando acontece algum imprevisto durante a prova, tais caraterísticas são fundamentais para que as equipes de resgate possam salvar uma vida. E a mesma eficiência e tecnologia a serviço dos astros das pistas durante o GP do Brasil da categoria também estão à disposição dos pacientes, 365 dias ao ano, nas unidades de retaguarda dos hospitais São Luiz, que há 11 anos coordena os trabalhos médicos em Interlagos, em São Paulo.
“Para atender pilotos e equipes, nós montamos um centro médico no autódromo José Carlos Pace. Mas o trabalho tem início seis meses antes, quando começamos a planejar o atendimento”, afirma Dino Altmann, diretor médico do GP Brasil de Fórmula 1 e médico da Rede D’Or São Luiz.
A estrutura no local inclui 173 profissionais, sendo que 43 deles são médicos, e o restante, enfermeiros, bombeiros e funcionários da área administrativa. Toda essa equipe é apoiada por dez ambulâncias, quatro carros de intervenção médica, três veículos para a imobilização e retirada do piloto de dentro do cockpit, dois helicópteros, três leitos de emergência, dois de UTI, laboratório de análises clínicas, raio-x, ultrassom e consultório oftalmológico. A lista de recursos é bastante extensa, mas o grande destaque são alguns equipamentos que representam o que há de mais avançado na medicina mundial, como o I-Stat.
“Essa máquina foi desenvolvida inicialmente para uso em viagens espaciais. Ela é capaz de, com apenas uma gota de sangue, realizar uma série de exames cujos resultados saem em cerca de um minuto”, diz Pedro Rozolen, diretor médico adjunto do GP do Brasil de F-1.
O AutoPulse, usado para fazer massagens cardíacas automaticamente, também é um dos protagonistas no atendimento aos pilotos. Ele consegue realizar sua tarefa de forma mais eficaz do que as mãos humanas, e ainda libera o médico para desempenhar outras funções. Outro recurso de ponta é uma espécie de manequim, que possibilita a programação eletrônica de um quadro clínico específico. Assim, o “paciente” vai reagindo às decisões médicas e auxilia no treinamento dos profissionais da Rede D’Or São Luiz.
“Além dos aparelhos, que são os mesmos utilizados nos hospitais da rede, a capacitação dos médicos vai fazer a diferença em uma emergência.”, resume Altmann.
Um dos principais usos do manequim se dá duas semanas antes da corrida, quando é feita uma grande simulação com toda a equipe médica do evento. Em 2010, a situação encenada foi um acidente na curva do Laranjinha, e o “piloto” apresentava ferimentos tanto no tórax como na região cranioencefálica.
“Apesar de serem médicos com larga experiência no atendimento ao trauma, sempre fazemos treinamentos específicos dos procedimentos relacionados ao automobilismo”, aponta o diretor médico do GP do Brasil.
Nessas simulações, o socorrista precisa lidar com todas as dificuldades de uma corrida, como o barulho dos carros, que atrapalha na hora de escutar os batimentos cardíacos pelo estetoscópio, e a pressão de estar sendo visto pelo mundo por meio da televisão.
UMA CORRIDA À PARTE
A gama de especialidades envolvidas no atendimento emergencial do Grande Prêmio é ampla, incluindo cirurgia geral e de trauma, operação torácica, neurocirurgia, ortopedia, cirurgia plástica e a queimados, cardiologia, terapia intensiva, anestesiologia, cardiologia vascular, oftalmologia, radiologia e diagnóstico por imagem. Em casos de emergência, todos correm contra o tempo para fazer o melhor atendimento possível durante o GP de Fórmula 1.
A grande diferença do atendimento em pista para o pré-hospitalar, destaca Altmann, diz respeito ao tempo de resposta em caso de acidente. Na pista, o compromisso é atender em segundos, enquanto nas ruas o objetivo é não ultrapassar muito os dez minutos. “A situação clínica do piloto é muito instável. Podemos encontrar um competidor em coma, que alguns minutos depois está conversando com você, ou outro que aparentemente não apresenta nenhuma lesão e depois de alguns minutos tem um colapso circulatório ou respiratório”, afirma.
Em uma ocorrência no autódromo, os profissionais dos carros de intervenção médica são os primeiros a chegar ao local do acidente, após a autorização da torre de controle. Eles levam os equipamentos médicos necessários para a primeira abordagem e uma eventual ressuscitação. “O desafio é conseguir se informar bem na pista sobre o trauma e dar um bom atendimento na primeira hora, que nós chamamos de ‘golden hour’. Ela será fundamental para o sucesso na recuperação do paciente”, conta Rozolen.
Foi o que aconteceu no acidente envolvendo o espanhol Fernando Alonso, em 2003. Com a pista molhada, o australiano Mark Webber havia batido sua Jaguar na entrada da reta de Interlagos, deixando destroços pela pista. O espanhol não conseguiu desviar de um deles e acabou se chocando contra o muro com violência. “Aguardamos a ordem da torre e entramos em ação. Ele foi imobilizado e encaminhado para o centro médico, onde foi atendido e, posteriormente, transferido para o hospital de retaguarda. Felizmente, não sofreu nada mais grave, mas essa foi uma situação na qual colocamos à prova todo o ciclo que nós treinamos”, diz.
Mas não são apenas os pilotos que são atendidos pela equipe de resgate que atua em Interlagos. Em 2007, por exemplo, o então estreante Kazuki Nakajima, filho do japonês Satoru Nakajima, contemporâneo de Ayrton Senna na F-1, não conseguiu frear sua Williams nos boxes e atropelou dois mecânicos da própria equipe. Um outro episódio recordado por Rozolen foi quando um meteorologista, também da equipe Williams, caiu de um barranco em Interlagos e fraturou o crânio.
“Nossa relação com o pessoal das escuderias é tão boa que muitos deles se machucam mas esperam para chegar a corrida no Brasil para se tratar conosco. Foi o caso de um mecânico da McLaren, que caiu de bicicleta no GP da China e aguardou duas corridas para vir a São Paulo se tratar”, lembra o diretor adjunto.
ATENDIMENTO INTEGRADO
Em um acidente, para que o salvamento tenha sucesso, é fundamental que a torre de controle informe os médicos de pista sobre fatores como a velocidade da batida e se o carro capotou ou pegou fogo. Isso serve para que a equipe se prepare da melhor forma para o que vai encontrar. Chegando ao local, os médicos precisam tomar todos os cuidados para não aumentar as proporções do acidente ou causar um novo evento. Por isso, é checada a temperatura de pneus e discos de freio, além do status do KERS, dispositivo que armazena energia das freadas para ampliar a potência do carro durante a prova. Caso ele seja danificado, existe o risco de ferir o pessoal de resgate com choques elétricos.
“Depois disso, nós vemos se o piloto está consciente, como estão seus braços e pernas, em que parte o carro está danificado. Então fazemos hipóteses sobre os ferimentos, passamos isso para a torre e começa uma verdadeira reação em cadeia”, explica Rozolen.
Na sequência, entram em ação os carros de extração, especializados na imobilização e retirada de um piloto. As ambulâncias fazem o transporte da vítima até o centro médico, onde helicópteros ficam de prontidão para encaminhar o ferido para as unidades hospitalares de retaguarda do São Luiz Morumbi, Itaim e Anália Franco, caso haja essa necessidade.
“Muitos dos procedimentos usados no automobilismo são aditados da medicina militar e do atendimento pré-hospitalar. A integração da equipe de emergência no autódromo com o pessoal de retaguarda no hospital beneficia o atendimento da vítima de trauma”, conta Altmann.
A experiência adquirida ao longo dos anos de trabalho no automobilismo também contribui para ampliar as chances de sucesso no caso de alguma ocorrência. O início da relação do São Luiz com o setor se deu em 1998, quando seus profissionais coordenaram os serviços médicos nas etapas paulistas do Campeonato Brasileiro de Stock Car e da Fórmula Chevrolet. Três anos depois, foi a vez de tomar a frente dos trabalhos de resgate do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, e desde então a parceria vem se repetindo todos os anos.
“Em uma situação de trauma grave, é preciso que haja pouco espaço [de tempo] para improvisar. Atender um acidente no ‘S do Senna’ nos dá uma bagagem para lidar melhor com uma batida de um carro a mais de 120km/h, por exemplo, em ruas urbanas. Um hospital que está preparado para as situações extremas de uma corrida atua nessa área também fora das pistas”, finaliza Rozolen.